ENTREVISTA: GUILHERME VALADÃO GAMA!

Nessa semana em que os Guerreiros estão em Toronto batalhando por mais um título, entrevistamos um guerreiro que ficou no Brasil: Guilherme Valadão Gama.

Recuperando-se de operação no ombro, Valadão se prepara para trilhar um caminho muito especial. No meio desse caminho está a volta às quadras pelo BM Granollers, continuando uma bem sucedida carreira no handebol espanhol; no final, se tudo correr como esperado, estaria a vaga no time que vai disputar os Jogos Olímpicos de 2016.

Dada a concorrência por lugares na seleção masculina, ainda mais na posição de Valadão, a lateral esquerda, uma vaga entre os quatorze jogadores que estarão no Rio 2016 será fruto de trabalho árduo. Mas para este jovem que ainda em seu primeiro ano na Asobal  foi chamado de diamante bruto por Edu Agullo (um dos melhores jornalistas de Balonmano da Espanha), essa parece ser uma conquista perfeitamente possível.

Fiquem então com as palavras deste jovem craque sobre seleção brasileira, Asobal e muito mais.

 

Trave QuadradaComo está a sua recuperação da cirurgia no ombro? Já tem previsão de volta?

Guilherme Valadão Gama – Com a recuperação está tudo dentro do previsto. É complicado você ficar fora de competições importantes como o pan de Toronto, porém não tive muita escolha e queria estar 100% para as Olimpíadas. A previsão de volta é para novembro, 6 ou 7 meses após a cirurgia. Pode ser que seja um pouco antes ou depois.

TQEm uns dois jogos do Granollers na segunda metade da temporada 2014/15 que foram transmitidos deu pra ver que você estava com alguma limitação, muitas vezes jogando de central e evitando arremessar. Em que momento da temporada você começou a sentir o ombro?

GVG – A lesão foi logo após o mundial, se eu não me engano no segundo jogo após o mundial. Ainda tentei fazer um tratamento conservador e voltar a jogar, joguei 3 ou 4 jogos, fui muito bem no ritmo de jogo, mas não tinha potência de arremesso e sentia o ombro totalmente instável! Foi ai que resolvemos optar pela cirurgia.

TQÀs vezes tenho a impressão que no Handebol acontece um número exagerado de contusões, talvez mais do que em outros esportes coletivos. Você acha que isso é da natureza do esporte mesmo ou existiria alguma coisa que poderia ser feita para diminuir a incidência de contusões? (alteração nas regras, mais rigor dos árbitros, ou mesmo mudanças no calendário etc)

GVG – O esporte em si exige muito fisicamente dos atletas, porém nós, brasileiros, fazemos a preparação física de uma maneira desorganizada nas categorias de base, chegando para o adulto carregado de lesões ou ainda não preparado fisicamente para o ritmo de jogo adulto. E não digo de força, temos jogadores fortíssimos, mas sem estabilidade nas articulações etc. Isso junto com o calendário diferente nos prejudica e acaba propiciando um numero maior de lesões.

TQChega de falar de contusões! Vamos falar da sua primeira temporada na Espanha, jogando pelo BM Guadalajara.

Vocês fizeram uma primeira metade de temporada excepcional, ficaram várias rodadas ali em torno do quinto lugar. Depois houve uma queda na segunda metade. Em sua opinião, a que se deveu essa queda?

GVG – Complicado apontar um único fator para nossa queda, posso te apontar uma série de eventos que ajudaram com que não seguíssemos brigando pela vaga na Europa: o grande número de lesões, o plantel reduzido e com as lesões desgastando muito os jogadores que não estavam lesionados, o atraso no salário, brigas com o treinador. Acho que esses foram os principais motivos!

TQNa temporada 2013/2014 foram transmitidos vários jogos do Guadalajara, que nós pudemos acompanhar aqui do Brasil por streaming no Laola. Quando os jogos eram no David Santamaria (obs: é o ginásio em que o BM Guadalajara manda seus jogos), depois do jogo as câmeras do Canal + entravam nos vestiários. A impressão que dava era que aquele time tinha uma união especial entre os jogadores, você concorda?

GVG – O vestiário era um ambiente quase que perfeito. Acho que pelos motivos anteriormente apontados , nossa união era incrível, quase todos os jogadores eram de fora da cidade, então passávamos o dia todo juntos, almoço, janta, treinos, academia e etc! Realmente aquele vestiário era um ambiente que nos fazia bem!

TQComo foi ser treinado por MateoGarralda?

GVG – Mateo é uma pessoa complicada, pelo seu gênio, e isso é reconhecido por ele. Entretanto, são poucos os jogadores que serão como ele foi. Ele sabe muito, e para jogadores de primeira linha ele ensinava muito, em técnica individual ele era muito bom. Foi um técnico que me deu oportunidade e eu tenho muito a agradecê-lo.

TQQuem joga na posição de lateral tem uma tendência natural de definir as jogadas. Mas sabemos do valor que os espanhóis dão ao jogo com o pivô, com os extremos e à continuidade da bola na primeira linha até encontrar uma oportunidade clara de arremesso. Como foi a sua adaptação ao jeito espanhol de jogar?

GVG – Eu sempre tive um arremesso exterior muito forte, mas meu diferencial foi ser um jogador mais completo. Tenho companheiros que defendem melhor, que arremessam melhor ou criam mais, mas é complicado unir isso tudo em um jogador. Eu sempre tive isso como virtude, minha adaptação devido a isso foi tranqüila e me sinto muito à vontade na liga espanhola em função dessa qualidade.

TQO BM Granollers fez uma excelente temporada em 2014/2015, chegando a todas as finais de copas contra o Barcelona e terminando em terceiro na Asobal. O que faltou para o Granollers tomar a segunda colocação do Logroño e chegar à ChampionsLeague?

GVG – Não sei se faltou algo, pois foi a melhor campanha da história do B.M.Granollers. Poderíamos ter ficado com a segunda posição pelo fato de haver ganhado os dois jogos contra Logroño, mas é complicado com uma liga de 16 times, copas, Euro… são tantos jogos que é complicado manter a regularidade e Logroño foi capaz de manter, ganhando os jogos que tinha que ganhar. Nós perdemos alguns pontos que não poderíamos perder, essa foi a maior diferença.

TQO Granollers perdeu 3 jogadores importantes (Ruiz, Grundsten e Pejanovic), contratou substitutos à altura (Ferrer, Porras e Bombom Almeida), mas que terão que se integrar ao jogo proposto pelo técnico Carlos Viver; além disso, vocês irão disputar a Asobal, as Copas na Espanha e jogar Copa EHF de novo. Parece que vem muito trabalho pela frente, não? Quais são suas expectativas para essa temporada?

GVG – Sim, perdemos 3 jogadores que serão difíceis de substituir à altura. Álvaro Ruiz para mim é um dos melhores centrais no ataque a nível mundial, jovem e muito talentoso; Pejanovic (Misha é seu apelido) é um goleiro com muita experiência e ajudava muito; e Nicklas Grundsten simplesmente é um dos jogadores mais fantásticos com que tive o prazer de dividir vestiário. Treina o tanto que for preciso, joga 60 minutos tanto no ataque quanto na defesa, experiente e sempre de bem com a vida. Diante de tantas qualidades parece que será um ano complicado, porém não será. As peças que seguem evoluíram muito e os que chegam são pessoas fantásticas e de qualidade técnica igual. Teremos o principio de adaptação, mas a partir do momento em que as coisas encaixarem será um ano maravilhoso!

TQFalemos de seleção brasileira. Em 2013, você foi ao Mundial da Espanha, mas voltava de contusão e jogou poucos minutos. Já em 2015 estava a todo o vapor e teve grande destaque. Fale um pouco da sua experiência pessoal nesses dois mundiais adultos.

GVG – Em 2013, nas fases pré mundial o técnico Jordi me chamou para conversar e disse: “você será importante nesse ciclo olímpico, mas pela lesão ainda não é seu momento, você entende isso? Vai estar aqui treinando e aprendendo mas provavelmente não ira ao mundial”. Eu aceitei a ideia de estar treinando e aprendendo, mas não a de ficar fora do mundial. Treinei muito e consegui ir. Joguei pouco e era notável que os atletas da minha posição estavam jogando em um nível acima do meu.

No mundial em 2015 não, eu me preparei para chegar ao mundial em um ótimo nível e consegui. Ganhei a confiança do técnico, da torcida e dos companheiros ali. Fiz um bom mundial, estava muito mais experiente que em 2013, por jogar na Europa.

Jogar um campeonato mundial é uma sensação incrível, você esta ali com os melhores do mundo, todos estão te vendo, acompanhando. Nesse tempo você está no ápice do esporte, a sensação é incrível, acho que sonho maior só umas olimpíadas.

TQVocê estava naquela final do Pan Americano de Canelones, em 2014, quando o Brasil perdeu por 11 gols para a Argentina, depois de uma série de encontros muito equilibrados. O que aconteceu naquele jogo?

GVG – É complicado responder essa pergunta, muita gente pergunta por isso.

Na minha opinião, não estávamos no nosso melhor potencial físico, chegamos do fim das ligas europeias cansados, o pessoal que joga no Brasil estava começando os torneios estaduais e, claro, o que realmente aconteceu foi uma superioridade dentro de quadra dos argentinos. Foi o típico jogo que se jogássemos 10 jogos seguidos ganharíamos 1, eles realmente estavam em um momento melhor que nós!

TQOs Guerreiros neste momento estão em Toronto, caminhando a passos largos para mais uma final com a Argentina. Acha que dessa vez a história vai ser diferente?

GVG – Sim, o momento que estamos agora é outro, os jogadores estão bem preparados. Temos muitas baixas. Além de mim, temos a do Arthur Patrianova e do Japa, e ainda tem os meninos da seleção júnior que estão no mundial, isso pode ser um problema. Mas os que estão lá têm qualidade e nível para substituir qualquer jogador do Brasil. Inclusive hoje (21/07) antes do jogo eles me ligaram por FaceTime já no vestiário e tive a oportunidade de falar com alguns deles, inclusive o técnico Jordi Ribeira, e senti que eles estão muito focado, comprometidos e com muita vontade. Com toda certeza eles vão conseguir fazer um excelente jogo, independentemente da vitória.

TQPara finalizar, conte um pouco sobre o evento beneficente que você promoveu agora em julho em São Bernardo.

GVG – O torneio surgiu de uma brincadeira. Por morar fora do país sempre que venho ao Brasil quero reunir todos meus amigos, e também sempre tive vontade de ter meu instituto, associação ou casa beneficente. Diante disso pensei em unir o útil ao agradável: juntei a ideia de reunir meus amigos, jogar handebol e ajudar quem precisa e realizei o “I Torneio Amigos do Valadão”.

Como todos estão aposentados, formei 6 times com no máximo 10 jogadores para todos participarem e fiz jogos de 10 minutos. Assim os jogos foram sem substituições e muito intensos. Consegui alguns patrocinadores (S.I.GAMA Manutenção Industrial, Despachante Cestari, Nakombi São Bernardo, Grupo CIC e Multi Mármores) e eles arcaram com os gastos do evento. A inscrição das equipes foi caixas de leite e mantimentos. Conseguimos passar uma tarde maravilhosa, num clima amistoso. Arrecadamos por volta de 500 litros de leite e alguns mantimentos e tudo isso foi doado para duas instituições em São Bernardo. Foi tudo tão legal que provavelmente acontecerá uma segunda edição, agora aberto ao publico e pretendemos arrecadar mais ainda.

 

* Uma vez mais, obrigado ao Guilherme Valadão Gama pela gentileza de conceder essa entrevista.