ENTREVISTA: MAYARA FIER DE MOURA!

No mundo do futebol existe um lugar comum segundo o qual todo canhoto é habilidoso, técnico. Não sei se isso em geral se aplica também ao handebol, mas, em todo caso, Mayara Fier de Moura é a perfeita confirmação do estereótipo: canhota, técnica, habilidosa e tem grande visão de jogo. Se os basqueteiros costumam dizer que alguém que joga com inteligência e bom entendimento do jogo tem um grande “QI de basquete”, poderíamos dizer, aproveitando a expressão, que Mayara tem um grande QI de handebol. E foi com este QI que ela conquistou a confiança plena do técnico da seleção brasileira feminina, Morten Soubak. Essa confiança a tornou parte essencial da primeira linha da seleção brasileira desde antes do Mundial de 2011. De lá para cá ela faz parte das certezas que Morten Soubak tem sobre o elenco da seleção feminina.

Como todos sabem, a confiança nela depositada pelo técnico dinamarquês, junto a outras coisas, fez de Mayara Fier de Moura uma campeã do mundo de handebol. Difícil falar algo mais sobre alguém que tem um título desses, não é? Difícil mas possível, e mesmo necessário. Porque as coisas não começaram naquele 22 de dezembro na Sérvia, e muito menos terminaram ali.

As coisas começaram no Paraná, o grande celeiro de atletas do handebol brasileiro (se formos nomear aqui os grandes atletas de handebol que vieram do Paraná não sobrará espaço para publicar essa entrevista!). Mayara começou a jogar handebol na cidade de Marialva, guiada por seu pai, Ralph Correia de Moura, técnico de handebol. Sua mãe também praticou e seus irmãos praticam o handebol. Podemos apenas imaginar o imenso orgulho que todos eles devem sentir de Mayara.

E como essa história termina? Só Deus sabe, mas a torcida de todos os brasileiros aficionados por handebol é para que ela se recupere completamente e volte a vestir a camisa da seleção, quem sabe nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016; quem sabe um pouco antes, ou um pouco depois. O importante é que ela volte bem.

Enquanto isso, fiquem com a ótima entrevista que Mayara Fier de Moura teve a gentileza de nos conceder!

 

Obs: gostaríamos de agradecer a Glória da Photo&Grafia. A foto que ilustra a matéria é de Cinara Piccolo/Photo&Grafia

 

 

Trave QuadradaQual a importância que seu pai teve em sua formação como jogadora de handebol?

Mayara Fier de Moura – Meu pai foi de total importância na minha formação como atleta. Toda a família está envolvida com o handebol. Meu pai técnico, minha mãe jogou até 2013, meu irmão Guilherme, 25 anos, já jogou em alguns times, mas agora joga com meu pai, e tenho o caçula, Nicolas, de 10 anos, que iniciou ano passado. Eu não tive como fugir dessa paixão….

Foi com meu pai que iniciei os treinamentos, na cidade de Marialva, mas minha relação com o handebol já começou muito antes, na barriga da minha mãe, que também foi atleta dele. Minha mãe jogou grávida até aos 3 meses, então, eu costumo dizer que já comecei o handebol antes mesmo de nascer, rsrsrsrsrs.

TQ Você é uma jogadora muito habilidosa e com muita visão de jogo, mesmo em situações de grande velocidade. Acha que essas suas características estão ligadas ao fato de ter começado a jogar antes dos dez anos de idade, ao contrário da maioria das jogadoras e jogadores brasileiros?

MFM – Muitos fatores podem ter colaborado em formar o meu estilo de jogo. Eu comecei muito cedo, treinando no meio de atletas mais velhos, que serviam de espelho para mim, tanto meninas como meninos. Quando eu não estava treinando estava assistindo aos treinos, porque não tinha com quem ficar em casa, meu pai estava dando treino e minha mãe treinando, então eu estava sempre observando.

Outra coisa que ajudou é que meu pai tinha muitos vídeos em casa, de campeonatos europeus, mundiais, olimpíadas, e ele gostava muito de me mostrar os jogos, ou chamava os atletas para assistir em casa e eu estava sempre junto, principalmente vídeos de campeonatos masculinos. Eu me impressionava muito com a maneira de jogar dos centrais, eu achava lindo.

Também nos treinamentos, meu pai gostava muito de ensinar, na iniciação, exercícios que estimulavam tomadas de decisão rápidas, arremessos com recursos, aprender a jogar em todas as posições, aprender a fazer queda depois do arremesso. Então, eu acho que esse conjunto de coisas me ajudou a formar a minha forma de jogar.

TQExiste(m) alguma(s) jogadora(s) que te inspirou no seu início no handebol, alguém em que você se espelhava?

MFM – Como eu comentei na pergunta anterior, eu costumava assistir muito a jogos do masculino, e tinha como inspiração Talant Dujshebaev, Staffan Olsson, Jackson Richardson e Ivano Balic.

E eu sempre fui muito fã da Zezé Sales, aqui no Brasil, e depois de conhecer ela me tornei mais fã ainda.

TQVamos falar sobre seu Mundial Júnior, o de 2005. Nos mundiais juniores femininos de 1997, 1999, 2001 e 2003 o Brasil já havia feito bons papéis, até mesmo vencendo seleções européias. Mas no Mundial de 2005 houve um salto, o Brasil venceu a França e a Espanha, teve até jogadora no “all star team” (nota: Duda Amorim foi a melhor lateral esquerda do mundial) e terminou em nono lugar o campeonato. Quais são suas principais memórias daquele mundial?

MFM – Só momentos bons dessa época. Um grupo muito alto astral, que era sempre uma alegria se reunir. Escutávamos que era uma geração muito boa que estava vindo, e fomos muito felizes pra esse mundial escutando isso.

Um grupo comprometido, que desde muito novas levava muito a sério, a maioria com sonhos de chegar longe.

Chegamos nesse mundial sem pressão e jogando com alegria, cada vitória era como um título, principalmente contra as européias.

TQVocê saiu cedo do Brasil para jogar na Espanha, numa época em que aquele país era a porta de entrada do handebol europeu para as jogadoras brasileiras. Veio a crise, a liga espanhola desceu de patamar e hoje não há nenhuma jogadora brasileira jogando na División de Honor (agora chamada de “Liga Loterias Balonmano”, devido a um novo patrocínio). Está mais difícil fazer a transição do Brasil para a Europa hoje em dia do que era há sete ou oito anos atrás?

MFM – Pelo contrário, acho que hoje as jogadoras brasileiras estão mais valorizadas. Cada vez mais, clubes na Europa procuram brasileiras para integrar a equipe, pelo crescimento que teve o Brasil no cenário internacional, o status de campeãs mundiais e claro por ver os exemplos de atletas que abriram as portas na Europa.

TQEspanha, França, Áustria e Dinamarca: você jogou em todos estes países. Que conselhos você daria para uma jovem jogadora ou jogador que tem o sonho de jogar na Europa? Como ela ou ele deve se preparar para isso?

MFM – Eu acho importante não pular etapas, jogar campeonatos importantes aqui no Brasil. Para mim foi muito importante para meu crescimento como atleta ter jogado uma liga nacional, passar por equipes competitivas aqui antes de sair…(nota: Mayara não só jogou a Liga Nacional de 2006 pelo Blumenau como foi a artilheira do campeonato!)

Procurar o máximo de informações sobre o país, sobre o clube a que vai, para não entrar em roubada. Hoje é muito fácil obter essas informações com a internet, e temos muitas atletas que estão ou já passaram pelos clubes e estão sempre dispostas a ajudar.

TQComo foi a experiência de jogar na Dinamarca? Sabemos que os nórdicos dão bastante importância para defesa/contra-ataque, mas no jogo posicional eles são bem dinâmicos e bons passadores, e o seu estilo de jogo parece se adequar muito bem ao handebol dinamarquês. Foi assim mesmo?

MFM – Eu amei jogar na Dinamarca. É um jogo muito intenso e rápido, ajudou muito a melhorar meu jogo, só acrescentou e foi um aprendizado muito grande. Pena que foi pouco tempo, porque eu estava lá há apenas 4 meses e acabei lesionando o joelho.

TQEm que estágio está a sua recuperação? Vi uma foto sua junto do time do Pinheiros, você está treinando com elas? Será que vamos poder ver a Mayara de volta já na Dinamarca em dezembro de 2015?

MFM – Infelizmente não será possível me ver no Mundial desse ano. Eu já estava voltando aos poucos aos treinamentos com a minha nova equipe, Pinheiros, mas em um choque com uma companheira de equipe no treino eu acabei lesionando o joelho de novo, e fui submetida a uma nova cirurgia de reconstrução do LCA (Ligamento Cruzado Anterior), então ficarei afastada das quadras até o ano que vem.

TQVou encerrar com duas perguntas, uma desagradável e outra agradável (rs). Primeiro a desagradável: o primeiro tempo de Brasil x Noruega em Londres 2012 foi uma das melhores performances que já vi da seleção brasileira feminina, e você jogou praticamente todos os minutos. O que aconteceu no segundo tempo? Imagino que vocês jogadoras conversaram sobre isso e devem ter algumas hipóteses para entender a derrota, do tipo “não devíamos ter feito isso ou aquilo”. (nota: quem quiser assistir a este jogo na íntegra, veja aqui)

MFM – Foi um jogo que todo mundo gostaria de esquecer, mas deve ser lembrado pra nunca mais ser repetido rsrsrsrsrs…. Foi um apagão geral, onde não conseguimos criar mais nada, a agressividade que tivemos no primeiro tempo e abrimos o placar sumiu, inconscientemente ficamos passivas, acabamos confundindo não acelerar para manter o placar com a passividade, e mérito delas que foram para o intervalo e voltaram com outra atitude e provavelmente obedeceram a tudo que o técnico havia pedido.

TQAgora a agradável: Como é a sensação de ser campeã do mundo? Dá para descrever alguma coisa dessa sensação ou ela é mesmo indescritível? Durante o Mundial 2013 uma reportagem mostrou vocês jogadoras assistindo na Sérvia a um vídeo de incentivo feito no Brasil. Em um momento aparecia a Daly Mesquita no vídeo, você até se emocionou. Você tinha consciência já naquela hora de que todas essas grandes jogadoras-heroínas do passado estavam sendo ali representadas por vocês?

MFM – É realmente indescritível essa sensação, é uma alegria que não cabe no peito, acho que passei uns 3 meses sem conseguir tirar o sorriso do rosto, nem para dormir rsrsrs.

Eu chorei porque passa um filme na cabeça, saber que eu admirava essas meninas jogando pela seleção e naquele momento a gente estava ali representando cada uma delas, cada sufoco e luta que elas tiveram para tornar possível aquilo. Cada uma que já passou pela seleção faz parte desse título sem dúvida nenhuma.

Sem falar que a Daly é exemplo de atleta, raça, disciplina e força de vontade. Ela é uma fofa.

TQMuitíssimo obrigado por responder a esta entrevista, e que você volte o mais rápido possível à seleção brasileira.

MFM – Obrigada, foi um prazer.