LIGA NACIONAL FEMININA DE HANDEBOL COM 6 CLUBES E A MATÉRIA DO ESTADÃO

Na última semana a Confederação Brasileira de Handebol divulgou a tabela da Liga Nacional Feminina 2015, e junto disso a informação que a competição contará com apenas seis equipes participantes, entre as quais não estarão equipes importantes como Santo André e Blumenau.

Sem dúvidas esta é uma notícia triste para quem acompanha o handebol nacional, e que enseja várias reflexões: a Liga Nacional é viável? Deve-se tentar realizá-la mesmo que não seja viável? A CBHb está fazendo menos do que poderia no que diz respeito à Liga Nacional? Um debate motivado por estas questões é saudável para o handebol brasileiro, independentemente das posições adotadas, sejam elas críticas em relação à CBHb ou não. Em suma, não nos opomos ao debate crítico, muito pelo contrário, mas desde que as eventuais críticas e juízos de valor sejam justificados e tenham o mínimo de fundamentos.

Acontece que no dia 07/08 surgiu uma matéria no site do Estadão a esse respeito (veja aqui a matéria). A tal matéria claramente se pretende crítica, mas infelizmente tem dois defeitos significativos: de um lado, as críticas se baseiam em fatos descritos com ambiguidade, na melhor das hipóteses; de outro, a matéria veicula juízos de valor que não são de maneira nenhuma justificados. Em ambos os casos, apenas desinforma o público não atento ao handebol.

Comecemos pelo título da referida matéria: “Handebol feminino perde quase metade dos clubes do País”. Segundo o conteúdo da matéria, a suposta perda é constatada comparando a quantidade de clubes da Liga Nacional Feminina 2013 (11 clubes) com a da Liga Nacional 2015 (6 clubes).

Primeiramente, “perder” aqui pode dar a entender que os clubes que não se inscreveram na Liga Nacional 2015 encerraram suas atividades, o que não é verdade. Então, o handebol feminino não “perdeu” quase metade dos clubes que disputam a Liga Nacional, que dirá quase a metade dos clubes de todo o País.

Mas, alguém poderia alegar: “não, o autor da matéria quis dizer que o handebol feminino perdeu quase metade dos clubes de alto nível do País, já que os clubes de alto nível são aqueles que estão na Liga Nacional”.

Isso também não é verdade, o handebol feminino de alto nível no Brasil não é apenas aquele praticado na Liga Nacional. Ano a ano, podemos admitir que os dois ou três melhores times do Brasil participam da Liga Nacional feminina, mas daí para baixo sempre há vários times que ficam de fora e que poderiam fazer um bom papel na Liga, melhor inclusive do que muitos dos times que dela participam.

Em suma, não dá para identificar o handebol feminino de alto nível praticado no Brasil com a Liga Nacional. É óbvio que a Liga Nacional vai mal, há anos, mas isso por si só não quer dizer que o handebol feminino praticado no Brasil vai mal.

O outro problema da matéria do Estadão é conter alguns juízos de valor questionáveis, e um que eu acho particularmente equivocado: ali foi dito que “no feminino, o handebol jogado no País nunca foi tão fraco”.

O que o autor da matéria quis dizer com isso? Dá a entender que se refere ao nível de jogo apresentado pelas equipes e às jogadoras que atuam no Brasil. Se for isso, está tremendamente enganado. Não vou me justificar aqui sobre esse ponto, porque tornaria esse texto mais longo do que já está, mas acho que há várias razões para dizer que o nível de jogo atual do handebol feminino interno não é pior do que o do passado, e diria até que não é muito pior do que o de alguns países da Europa. As minhas razões sobre esse ponto eu escreverei em outro post, se a alguém interessar.

De uma maneira geral, a matéria do Estadão pode dar a impressão de que não há boas jogadoras e bons times em número suficiente para realizar um campeonato interno de bom nível no Brasil, e isso não é verdade. O grande problema do handebol feminino interno é conseguir planejar e organizar esse campeonato, mas o potencial para que ele exista está aqui, intacto. Para quem acompanha, é só imaginar o que seria um campeonato como o Super Paulistão feminino deste ano com a participação do Vasco/FAB, Blumenau e Concórdia, por exemplo.

Então, ao invés de desvalorizar aquilo que nós temos de bom no handebol feminino interno do Brasil, que são as boas jogadoras, os bons técnicos e os bons times, para com isso tentar criticar a CBHb, deveríamos fazer justamente o contrário e nos perguntarmos: como com tantas boas jogadoras, bons técnicos e bons times, nós não temos um campeonato nacional estável, organizado? Será que um campeonato que seja mesmo nacional é, por hora, inviável? Será que a CBHb está fazendo tudo o que poderia para dar soluções a estes impasses?

Antes de se encontrar boas soluções, é necessário identificar e tornar precisos os problemas a serem solucionados. Uma matéria de jornal não tem obrigação de contribuir para nenhuma das duas coisas, mas também não pode desinformar.