ENTREVISTA: LEONARDO VIAL TERÇARIOL!

É um lugar comum dizer que a posição de goleiro tem algo de especial, em qualquer esporte onde ela exista. “Goleiro ganha jogo”, “o goleiro é um pouco louco”, “todo bom time começa por um bom goleiro”. Desconfio até que quando o handebol era jogado por 11 jogadores em um campo também diziam que “onde goleiro de handebol pisa não nasce grama”.

Retórica esportiva à parte,  talvez o handebol seja mesmo o esporte em que esses lugares comuns mais se aproximem da verdade. Ninguém que acompanha e conhece algo de handebol iria discordar: goleiro de handebol ganha jogo, é um pouco louco e todo bom time começa por um que seja capaz de incomodar os jogadores de linha no desigual duelo em que eles se encontram várias vezes por jogo. A medida de sucesso retumbante de um goleiro de handebol seria uma medida de fracasso em quase que qualquer outra atividade: menos de 50 % de acerto!

Graças aos “deuses do handebol”, o Brasil está bem servido desses loucos e loucas que treinam tanto, e que têm que se acostumar a serem vencidos mais vezes do que vencem.

Um desses craques é Leonardo Vial Terçariol, 28 anos, também conhecido como Ferrugem. Formado nas fileiras da Metodista/São Bernardo, depois de defender as traves desse imenso clube a da seleção brasileira adulta tomou a decisão de tentar a carreira no handebol europeu. Depois de uma temporada no Follo HK, na Noruega, chegou na temporada 2015/16 a uma das mais importantes ligas europeias, a Asobal. A seguir ele nos conta um pouco dessa sua bela história, que certamente ainda terá desdobramentos muito felizes.

 

1 – Como foi tomar a decisão de sair do Brasil para jogar na Europa?

Leonardo Vial Terçariol – Esse interesse vem desde muito novo, sempre fui fascinado pelo handebol europeu. Assistir pela internet ginásios completamente tomados pela torcida e ver o jeito que o europeu é apaixonado pelo handebol. Quando fui amadurecendo no esporte comecei a entender que no Brasil são poucas as equipes que levam o handebol de forma profissional, sendo assim as oportunidades de aliar a paixão à profissão se tornavam escassas. Então, comecei a procurar oportunidades de me transferir para a Europa, e ao final de 2013 tive uma oportunidade, mas infelizmente eu tive uma lesão no ligamento cruzado anterior e tive que fazer uma cirurgia. No final da minha recuperação a oportunidade bateu de novo à minha porta e tomei a decisão de me transferir para a Noruega.

2 – Como foi a temporada disputada na Noruega? Em termos de treinamentos específicos para os goleiros, o que eles fazem por lá é muito diferente do que você fazia no Brasil?

LVT – A temporada na Noruega foi de crescimento. A seriedade com que o norueguês encara o handebol é muito legal e foi novo para mim chegar em um local onde o esporte que você pratica tem cinco divisões. O handebol norueguês é um handebol de muita velocidade, eles priorizam muito a defesa e contra-ataque, logo o treinamento é de muita velocidade e intensidade. Eu tive a felicidade de treinar com Valter Perisa, um croata que vive lá há 25 anos, e ao menos duas vezes por semana ele priorizava os goleiros, juntando o trabalho específico de goleiros convencional com arremessos dos jogadores de linha, o que deixava o treino mais intenso. No Brasil eu já realizava os mesmos tipos de treinamento, mas fazia cada um separadamente.

3 – O time em que você e o Ales Silva jogavam, o Follo HK, chegou ao playoff de acesso e quase subiu para a Grundigligaen. Se tivesse acontecido o acesso vocês continuariam por lá ou a ideia era ficar apenas uma temporada mesmo?

LVT – Eu tinha dois anos de contrato no Follo HK, minha ideia era ajudar o clube a ter acesso à Grundigligaen e terminar meu contrato disputando a principal liga norueguesa. Mas infelizmente perdemos as duas partidas e então eu vi ali que teria condições de lutar por uma vaga em alguma Top League na Europa. Entrei em acordo com o clube, que entendeu a minha parte e me liberou para procurar uma nova equipe.

4 – Agora você está em um time tradicional da Asobal, mas que sofreu muitas mudanças da temporada passada para esta. Fizeram uma boa pré-temporada, mas estão enfrentando adversários difíceis agora no começo do campeonato. Quais são as metas do Ciudad Encantada nessa temporada?

LVT – Sim, agora estou em minha nova caminhada na Espanha, e a liga Asobal é uma liga muito equilibrada. Na última temporada a equipe se salvou do rebaixamento na última rodada com uma vitória em casa. Depois do término da temporada a equipe foi renovada e fizemos uma boa pré-temporada, mas ainda era uma fase de teste tanto para nós quanto para as outras equipes e sabíamos que os resultados nos davam confiança para começar, mas que durante a liga seria muito diferente. Tivemos uma sequência de jogos que não nos ajudou muito, na Espanha é sempre muito duro jogar fora de casa e nos jogos em casa enfrentamos duas equipes com nível altíssimo (Benidorm e Ademar). A tabela não foi muito amigável com a gente nesse começo, mas temos que seguir trabalhando para em cada jogo sair com melhores sensações de quadra. Nossa meta nessa temporada é não sofrer como a equipe sofreu na temporada passada e trazer boas sensações para a nossa torcida que é tão fanática.

5 – Como tem sido a experiência de jogar na Espanha, particularmente em Cuenca, uma cidade tão apaixonada por seu time?

LVT – Jogar na Espanha eu diria que é uma evolução constante, você tem que se superar a cada treino e a cada jogo. As equipes se estudam muito, assistem muitos vídeos de adversários, algo como de 3 a 4 vezes por semana temos vídeo. Hoje a liga passa por uma reestruturação e mescla jogadores experientes com jovens promessas, mas a qualidade não deixa a desejar em nada a nenhuma liga. E realmente Cuenca respira handebol, é o único esporte que disputa a primeira divisão na cidade e as pessoas gostam, entendem e te cobram por bons resultados não só dentro do ginásio mas também nas ruas, mercados e restaurantes. Querendo ou não é uma pressão, mas a qual estou levando de forma bem tranqüila e como um incentivo a mais.

6 – Conte um pouco como foi participar da Universiade 2015 na Coréia do Sul.

LVT – Jogar a Universiade para mim foi sentir o gostinho de voltar a vestir a camisa do meu país em uma competição, o que eu levarei sempre na minha memória. Realmente é uma competição com nível de Olimpíadas, tanto pela estrutura da Vila Olímpica, transporte escoltado, refeitório, aquele contato o tempo todo com todas as modalidades, coisas que você presencia apenas em Olimpíadas e Jogos Pan Americanos, quanto pelo nível. A Suíça, dos 15 atletas que lá estavam 7 são jogadores da seleção principal e 4 que já atuaram em times da Bundesliga; a Hungria com jogadores que jogaram o Mundial Júnior anterior ao do Brasil, a Sérvia também com jogadores que atuam na liga de seu país. Ou seja, um campeonato de altíssimo nível (Nota: falamos aqui, aqui, aqui e aqui sobre o grande nível da Universiade também no handebol feminino). Pelo pouco tempo de preparação que tivemos, o curto espaço de tempo para se adaptar a 12 horas de fuso-horário, e caindo na chave mais difícil da competição, por essa série de fatores, penso que fizemos um bom papel vencendo equipes européias de alto nível. Poderíamos até ter brigado por pódio.

7– Por fim, você participou do Mundial da Suécia 2011. Ainda pensa em voltar para a seleção brasileira?

LVT – Eu participei do Mundial da Suécia em 2011 e do Pan Americano de Handebol da Argentina em 2012, até iniciei o ciclo olímpico participando mais ativamente de fases de concentração da seleção. A última foi uma fase de amistosos contra equipes espanholas em 2013, que foi a última fase de treinamento com a seleção que eu participei. De lá para cá as coisas foram se afunilando e agora quanto mais perto das Olimpíadas as chances vão diminuindo, tenho consciência disso, mas tenho sim o desejo de voltar para a seleção e trabalho todos os dias para que isso aconteça. O sonho de todo atleta profissional é jogar Mundiais e Olímpiadas por seu país, e comigo não é diferente.

 

Muito obrigado ao Leonardo Vial Terçariol por nos conceder essa ótima entrevista!

Foto: site da Asobal.